ELOY NUNES


O ETERNO, por Eloy Nunes

 

Dois mil pés de altitude, e as nuvens como chão firme. Sempre me senti assim, aéreo. Sem brevê ou autorização, somente disposto a embarcar para longe, rapidamente, sem sentido. Este é o principal detalhe, sem destino.

Rumo ao alto, cada vez mais desorientado ao longo do caminho... Um Ícaro sem sol, sem queda. Um Adão sem Eva ou serpente. Um minotauro sem labirinto. Um ser que tenta ser.

Nem que para isso busque a companhia das estrelas, a raridade do ar, a ausência da gravidade, os sistemas ainda não catalogados.

Difícil missão a minha de fazer castelo nas areias da lua, de abençoar os anéis de saturno, de julgar se plutão é afinal um planeta. E eu lá sou alguém? Eu sou?

Nem refletido em proporções colossais nas águas do Atlântico ou curtindo um rabo de cometa, mesmo assim, não consigo sentir minha vida!

Vou fora do mais além, e a impossibilidade existe em mim. Sou, não-sendo!

Questão antiga, tão particularmente minha... Então, se é minha, eu consigo ser!

Existo através da dúvida, do não-sentido, da desorientação.

Volto do infinito ao solo mais fértil, e não broto!

Não avisto Abrolhos, não desvendo o Novo Mundo, muito menos testemunho o Antigo.

Vejo a terra redonda, e desconfio. Acendo a lâmpada, sou Idade Média. Esfria, vaporizo, sem combustão, nem sei do que se trata... Viro rabisco, escorro ao sangue do animal abatido, sinto a dor do primeiro dente que surge dente...

E, finalmente, broto!

Surjo à boca de um dinossauro!

Ali repouso. Língua, ansiedade de bicho. Vontades. Mastigo, ranjo, gasto. O animal morre, eu permaneço... Fertilizo o solo, quem diria!

Boas partes de mim sobem 50 metros na copa da árvore mais digna daquele trecho da costa leste dos Estados Unidos. Outros pedaços minúsculos viraram alimento de minhocas e, assim, num ciclo sem-fim, estive em milhares de milhões delas pela Ásia, África... No Brasil, ainda resisto no bico de colibris. Na Índia, a parte mais ínfima do que fui é agora íris de vaca. Navego pelo Índico, componho as barbatanas das baleias. Estou no céu, chão, água... Sou tudo, logo existo, sem saber quem sou exatamente.

Busquei vida, virei vida, mas restei em nada absoluto.

Resposta alguma obtive ao fim, e nem mesmo sei se houvera de fato começo.      

Escrito por Eloy Nunes às 01h36
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