MEU NARIZ DE PRINCESA, por Eloy Nunes

A menina feia cortara o pulso de novo ainda nem cicatrizado. Desta vez, só sairia do chuveiro sem vida.
Sua maior ferida era outro buraco, um imenso, no meio dos peitos que nem cresceram ou mesmo foram tocados. Só por ela, timidamente.
Tinha tentado de tudo: a igreja da tia devota, não comer chocolate e desabafar com duas amigas. Ninguém entendia sua dor nem ela.
E a ferida sangrava no peito e nos pulsos. Num impulso, gritou mãe! Pai! E o nome de um menino! Eles saíram para jantar, e o tal garoto...
Ela encasquetou que ele seria seu amor de vidas passadas, desde aquele mítico recreio. E quem haveria de mudar seus sentimentos? Muito menos ela ou ele, que soube do lance no corredor da escola num esbarrão proposital. Nunca houve “olá” entre eles, e agora aquela mirabolância toda. Ele riu, ela chorou.
E chorava sob a chuveirada. Nessa hora, o menino dormia ou batia punheta pensando em alguma outra garota.
A caixa d’água secou e ela esmurrou o azulejo, pintando bizarramente a parede. A artista surgiu tão desesperada que destruíra a obra, escorregando desfalecida com a cara no ralo. O Box sangrava, ela, pálida.
E, milagrosamente, o sangue estancou. Levantou triste, não sairia dali para a cova nem alcova alguma, mas para sua cama, manchando-a de vermelho tão íntimo, que a mãe guardou o lençol, celebrando a primeira menstruação da filha. Errara a data em dois anos.
No verão seguinte, perdeu a virgindade com um primo mais velho, bêbado. Foi legal, na cama dela, num novo jantar dos pais, mas sem sentimento. Preferiu assim, o primo também. Aliás, ele não lembrou de nada depois.
Ah, detalhe, o garoto, paixão de suas muitas vidas, não batia punheta, ou melhor, batia, e sagradamente, à noite, mas numa concorrência desleal... Revelou-se gay. E ela sempre acusaria o torto do seu nariz que nunca foi assim tão torto.
Escrito por Eloy Nunes às 12h38
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CLARAMENTE MARIA, POR ELOY NUNES

Essa CLARIDADE do seu olhar mata.
Tanto que despenquei ali na esquina, esguichando geléia framboesa num corte profundo do agora vazio pacote de bolacha MARIA.
Maria, assim ela se chama. Chamo, e não retorna o olhar... Azul, verde, mel, pouco importa.
A geléia se misturou com suor frio. Faltou-me ar, perdi o rebolado, ganhei o dela!
Ora remexendo a cadeira para um lado, ora para o outro, com ininterruptos pensamentos nada frios à mente.
Que NÃO MENTE, estou de quatro por ela!
Posição interessante de imaginar MARIA CLARA... Qual sua idade? Signo? Endereço? Terá Orkut? Blog? Fotolog esquecido? Poderia gritar por seu telefone!
Daí, me toco... Como sei seu nome? Pois é, nunca a vi; ah, meu coração de PAPELÃO é que inventou.
Achou bonito. Só espero que MARIA CLARA também goste, não é?
Putz! Ela se foi. Perdi MARIA CLARA.
Agora, só me resta a MARIA CLARA da escuridão da minha mente, desta mente que NÃO MENTE; daí, sempre me acusará que MARIA CLARA não é MARIA CLARA.
Vou aguardar aqui, de olho naquele olhar CLARAMENTE MARIA CLARA.
E rascunharei em PAPELÃO o nome dado, dando meu coração para sempre.
Esperando que pulse não mais solitariaMENTE, mas junto à CLARA, MARIA ou à mulher de olhar CLARIDADE que me ressuscite.
Não busco olhar FATAL, busco apenas a minha MARIA.
Ao alcance do olhar, CLAREANDO a MENTE e cobrindo-se com meu coração PAPELÃO para não perder o frescor nem se perder de mim!
Escrito por Eloy Nunes às 01h32
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