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OLHOS DOS OLHOS, por Eloy Nunes

E me trancaram no quarto escuro. Era eu e as quatro paredes daquela cela.
Uma prisão imaginária, uma sentença sem motivo, uma culpa que nunca existiu.
E ali me resignei e orei. Falava com Deus, quando alguém me tocou os ombros.
Pensei que seria um anjo, e vi, mesmo sem luz, um rapaz como eu, muito semelhante, pareceria eu até, mas não era.
Não poderia ser eu, claro, ainda não estava há tanto tempo ali para estar alucinado e não saber mais quem eu era. Eu era eu, sabe, e ele era ele, entende?
E ele me olhava, não falava nada... Fui encalacrado ali sem ninguém e agora me surge essa companhia tão silenciosa, como assim?
Seria um anjo caído, preso na mesma condição que eu? Perguntei.
Seus olhos não respondiam minha asneira e me contemplavam com tamanho ardor que pensei, isso são olhos de alguém apaixonado! Putz, fudeu! O QUE EU FAÇO?
Grito? Ameaço bater? Digo que não sou gay? Falo que barba me dá alergia, até meu pai me causava uma irritação braba... E ele pegou na minha mão.
Ah, não vem! Empurrei com todo meu asco! Senti um “ai” e seu corpo batendo contra a parede... Num gesto contínuo, quem empurrou foi acudi-lo, e olhando-o no chão, vi que se tratava de alguém muito parecido mesmo comigo. O seu olhar só poderia ser o meu. Vi que a cor era a mesma, e tentei enxergar o resto, e medindo cada centímetro do seu corpo vi que se tratava de um cópia, uma réplica perfeita de mim.
E essa criatura do além continuava me olhando um olhar que me desnudava por completo. Ainda bem que estava escuro, pensei, e ele sorriu. Captou meu pensamento, e reagiu enfim.
Além do ai será que ele podia falar algo? Dar alguma explicação, afinal, ele me surgiu quando eu estava no meio da ave-maria... E ele pegou de novo minha mão e levou até sua ferida aberta, sangrando, provocada provavelmente por meu empurrão. Não senti naqueles olhos nenhum rancor ou mesmo dor, ele era uma criança vidrada nos olhos do pai, e o pai, no caso, quase o matou.
Daí, gritei, pedi socorro, o rapaz que não sei o nome que apareceu do nada e não fala nada está morrendo, socorro! Ninguém acodia, ninguém respondia. Eu silenciei, e chorei... Ele chorou também. A minha vítima se apiedou da minha dor, mas a dele era maior, até porque se colocasse mais sangue ali, ele iria morrer em meus braços.
Não sabia o que fazer. Então, eu o embalei, cantando canções de ninar... Tudo entrecortado porque não lembrava direito, e sinceramente achava que dormindo ele sentiria menos dor. E naquele momento, juro, senti a mesma dor que a dele. E ele golfava sangue, me banhando inteiro e já eram seus momentos finais.
Pedi, como súplica, diga quem você é, e, num gesto supremo, conseguiu falar... Falou; e sabe quando as palavras são praticamente nada pela conexão imensa que sentimos naquele momento?
Acho que ele adormeceu ou morreu... E eu?
A partir daquele instante deixei-me brilhar, iluminar o recinto e, quando vi, não estava preso. Estava livre. E o corpo dele se dissolveu em pó. Um vento levou tudo dali, inclusive minhas roupas e pudores... Estava tão nu, e nada envergonhado.
Só vinha à mente aqueles olhos, que de fato, eram meus. Resgatados no outro, de um outro que sou eu também, que somos todos nós.
Escrito por Eloy Nunes às 22h59
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Todos somos assassinos, por Eloy Nunes

Acordei com os olhos ardendo, um som interno gritando: Hoje eu vou matar.
Levantei de calcinha e peitos expostos, suados, do bico às axilas.
Meus cabelos estavam eletrizados e revoltados no espelho.
Mais um dia com cara de louca, e finalmente entraria em ação.
Decidi matar o porteiro... Não, o porteiro não! O zelador, então? Ou aquele taxista abusado? Aquele pedinte fedorento da esquina? O ambulante que grita no meu ouvido toda vez que passo pela rua? O garçom sem graça da cantina que só vou aos sábados de dias pares? Ah, quem vou matar pra saciar minha vontade...?
Vesti uma Hering, rasgada, amarelo desbotado, com uma saia jeans com detalhes laterais, uma sandália baixa preta, deixando a mostra minha tatuagem de avestruz, desbotada também. Olhava a pose da avestruz com a cara enfiada no meu calcanhar e ouvi umas palavras no elevador. Nem compreendi, só me preocupei em esconder a faca no bolso detrás. Olhei de relance e vi uns olhos sorrindo pra mim. Pra mim? Justo hoje? Ah, nem vem, você pode ser a vítima...
Olhei com desdém o homem, e prosseguiria meu caminhar decidido logo após a porta abrir... Não abriu. Faltou luz, o elevador estancou entre o quarto e o terceiro andares.
Ele voltou a falar comigo, e eu não entendia nada. Não ouvia, estava tão longe dali. Só pensava em sangue e tripas pulando, e o elevador parado elevava ainda mais a minha... Dor.
Tinha sido traída na noite anterior, meu macho foi embora com outro macho. Nem tão macho assim, aliás, nenhum dos dois, mas eu, sim.
Acordei machona, puta de revolta, angustiada nos limites, irritada ao extremo, hoje eu saciaria minha dor em dor, em dores.
Mataria em mim a menina virgem que se entregou ao amor um dia, e veria estrebuchar no chão um corpo que eu escolhi para assistir a morte que eu mesma vivi na noite passada.
Passaram horas, o dia veio, e o escândalo de ver aquele namorado traidor dando a bunda na minha própria cama não me permitiu acordar hoje, e não voltei mais a mim, não caberia em mim a revolta.
Tomada por pensamentos, senti um toque nos meus lábios, um outro lábio me beijava? Não acredito! Aquele cretino de riso fácil estava me beijando? Como assim?!? Ele não percebe que estou em vias de matar alguém? Que agora pode ser ele? Esse beijo vai lhe custar caro, e peguei discretamente o cabo da faca... Onde está a faca? Eu tinha trazido comigo, posso garantir!
E ele vasculhava a minha boca com sua língua ansiosa... Que cretino. Eu o mataria agora, se achasse minha faca... Será que ele pegou? Além de ser vítima de traição da pior espécie, vou eu agora ser violentada com a faca que me pertencia? Passei a mão no corpo inteiro dele pra ver se a faca estava com ele, e nada, só senti seu membro duro. E decidi revirar suas intimidades atrás da faca!
Não sei o que sentia, mas fiquei molhada e, rápido, sua língua tirou meu seio da camiseta e correu até meu umbigo e depois... Transamos no elevador. E urrei pra fazer escândalo mesmo. Ele tampava minha boca, dizendo palavras num tom tão agradável... Parecia até um ex-namorado meu... Um antigo amor... Uma paixão repentina... Eu o abracei com tanto despudor que a luz voltou e a gente não se desgrudou naquela posição bizarra, que não se saberia quem estava penetrando quem. Alguém abriu a porta, a gente não estava nem aí, estávamos em outra galáxia... O que o sexo não é capaz? Rs
Ele gozou, eu também, finalmente... E relaxei. Só fiz dizer pra ele que morava no quinto andar, aparto 55. Ele me colocou na cama, e acordei de noite, com ele deitado na beirada. Acordei, sobressaltada, onde está a faca? Pois é, faltava mesmo uma faca no jogo de facas... Lá fui eu vasculhar o rapaz, e... Não era que ele era bonito demais! Além de um sorriso lindo, bom de sexo, atirado, ele era lindo? Rs
Como pode? Minha cama tá com mel? É o terceiro homem que deita nela em dois dias! Rs
E eu que queria mata-lo... Busquei nas minhas profundezas algum motivo pra ainda matar alguém, e ele despertou... Devagar, espreguiçou, ergueu braços, vi axilas, respirou fundo e disse, boa noite, Catarina. Ele sabia meu nome? Não lembra de mim? Ele disse. Eu nem respondi, não lembrava. Foi comigo que você perdeu sua virgindade há vinte anos. Nossa, o carteiro virou aquele sedex maravilhoso? Não sou mais carteiro, sou investigador e que grata surpresa ver que você se tornou uma mulher incrível, porque inesquecível você já era. Imagina, eu tinha 14 anos, disse, emendando que estava horrível e passando por uma crise amorosa das piores... Ele me puxou e olhou fixo nos meus olhos, e não disse nada, mas eu berrei. Vi pelos seus olhos, atrás de mim, meu namorado traidor vindo com uma faca nas mãos! Era alucinação minha, não tinha ninguém! Acho até que nunca houve namorado algum, e muito menos este ex-amante carteiro... Mas a vontade de matar alguém era pura e simplesmente verdadeira... E matei. Matei a menina mentirosa e sonhadora que sempre fui, e decidi recomeçar vida nova.
Escrito por Eloy Nunes às 22h03
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Página em Branco, por Eloy Nunes

Uma página em branco, e tantas amassadas dentro de mim.
Virei lixeira que não recicla, ando entupido de amargores, dúvidas e a única certeza é que não tenho certeza de nada.
Agora olho para o papel... Alvo, sem defeitos, limpo como um dia eu devo ter sido.
Será que, um dia, fui branco assim?
Desconfio que nunca fui puro... Devo ter manipulado minha mãe, ter tido raiva de meu pai, ainda pequeno, bem pequeno, mas grande nos erros!
Esse é o melhor dos feitos do ser humano, errar.
A gente erra pra valer, sem evitar quedas memoráveis, vergonhas absurdas, tragédias, comoções, violências; e amor, muito amor.
O amor é o maior erro que pode existir na face da terra!
Amar não é possível pra ninguém, ele nos violenta a condição transitória que tudo é e somos, é uma idealização e não passa disso!
E a gente tenta amar, chora, desespera, chafurda na bosta, e chora de novo, acredita, sonha, amedronta, se fecha, abre de novo, é uma gangorra sem-fim, que não tem graça e está num parque abandonado preste a ser explodido.
Só Deus, dizem, ama a gente, e veja as enrascadas e presepadas que Ele nos enfia por amor.
É duro, machuca, sangra até, e dizemos que é por amor, imagina.
A mãe, dizem, é exemplo vivo de amor na terra. Sem entrar nos exemplos bizarros, ela geralmente manipula, quer pra si, projeta, opina acintosamente e por aí vai.
Ou não vai, ninguém ama nada nem ninguém nessa orbe. Não adianta me iludir, aliás, só faço me iludir quando o assunto é amor.
Somos seres sem amor próprio, que dirá amor pelo outro!
Alguém já amou de verdade? E o que, afinal, seria verdade?
Chega de achar que acertamos, só podemos errar, já que o destino de todos é a cova.
Imperiosa necessidade de amar que nos move, mas pra onde? Pra morte? Se for assim, que outro sentimento surja pra nos levar a viver!
O sentimento de... Algo tipo... O pior é que o quê de mais nobre posso imaginar é o amor.
Como sou mesquinho, gente, repetitivo, e pior, falo mal da única coisa de nobre que consigo imaginar, só imaginar mesmo, porque viver, ah, aí já é pedir demais!
Página em branco, continue em branco, assim como meu coração passou em branco, e as nuvens só me trouxeram desabrigo e chuva na cara.
Lave-me das descrenças, feridas abertas, expostas, purulentas, de tantos desamores, erros sobre erros, ansioso por carinho de estranhos que nunca chegam na hora certa...
E que horas são agora? Quem é você que lê esse meu desabafo? Tem pena? Ah, você concorda comigo? Foda-se.
Não quero o amor de ninguém, nem mesmo o meu. É sempre tão temporário, interesseiro! Malditos humanos somos nós sem nunca ser nem ao menos humanos.
E a página em branco se dissolveu na chuva, melhor assim.
Escrito por Eloy Nunes às 22h17
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