ELOY NUNES


DO ABISMO À LUZ, por Eloy Nunes

 

Meu chão caiu...

E o abismo que se abriu é parte de mim, então eu sou bem mais profundo do que supunha. Agora não vejo o fim, onde será o alicerce de tudo que sou, de tudo... Tudo o que?

Não tenho raiz, daí não tenho caule nem galhos muito menos frutos. Sequei na terra, sem deixar registros, e o incrível é que o buraco resultante é tão profundo; um vácuo sem-fim.

Dá até vontade de gritar pra ver se ecoa. Gritar o meu nome? Mas eu nem existo, virei vazio. Vou gritar o nome da pessoa que amo... Porque mesmo desintegrado ainda existe no que seria eu aquele sentimento. Quem sabe daquela fenda sinistra não surge uma voz respondendo que me ama também, e será ela, dizendo enfim que o nosso amor sobrevive à morte do corpo físico, dos acontecimentos catastróficos e, mesmo num vão sobrenatural, o amor retorna na voz que agora grita por mim. Ouço meu nome... Eloy.

Consigo com dificuldade reconhecer que a voz que grita é a voz que eu amo, e justo ela diz que me ama também.

Um soar de palavras que chega tão impactante que agora perco o ar, como perdi o chão. Como perdi você!

E você me surge do extremo fim, onde nem sabia eu que poderia existir algo ou ainda um pouco de mim, e me vem você!

Amando sem limites, somos dois num espaço livre, no espaço. Astronautas sem respirador, sem gravidade, sem nave espacial.

Somente seres disformes que se formam no olhar do outro: você se refaz à minha frente,

e quando seus olhos se completam e me avistam, eu torno a ser, eu ressurjo.

Nosso abraço tão natural vira encontro de galáxias, e explodimos em cores e luzes e novos abismos ainda maiores, onde semeamos desta vez vida. Mundos recriados ali num amor tão sublime, que mesmo Deus cede-nos sua função.

E você sorri uma lua nascente tão linda. Eu caio em lágrimas, estrelas cadentes que enfeitam a noite que nos recolhemos.

Vem, meu amor, de onde você nunca deveria ter saído. De dentro de mim, desse coração carente que só consegue voltar a pulsar ouvindo o ressoar do seu coração. E, de repente, tornam-se um.

Um sol que é capaz de iluminar a todos.



Escrito por Eloy Nunes às 00h18
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