ELOY NUNES


CLARIDADE DEMAIS, MATA! Por Eloy Nunes

Fecharam a porta. Escureceu. E ali dentro, só eu.

Além de um sofá puído, uma mesa bamba, duas cadeiras com os pés roídos por um cachorro que viveu ali... Ainda um cheiro desagradável de urina de cachorro ou coco, não sei ao certo. De certo, precisaria sair dali.

E estava encalacrado, sem chaves, sem janelas, sem buraco de rato se quer!

Uma vontade se apoderou de mim. Uma vontade de transformar toda aquela escuridão visível em uma invisibilidade total, uma possibilidade impossível de tudo ali advir.

E adveio uma tremedeira, um desmaio, e logo levantei, ou seria RASTEJEI?

 

Sentia que não tinha braços nem pernas, não essas convencionais do Eloy de sempre... Mas um bater de pernas finas e peludinhas, uma angustiosa volúpia de sair pelas paredes escuras atrás de cantos ainda mais sombrios. Sentia isso, CREDO!

 

Como em Clarice, Kafka e produções hollywoodianas, virei uma BARATINHA ASSANHADA!

 

E lá me fui pelas paredes nem tão retas, nem tão escuras assim, e achei frestas, brechas, vácuos... Sendo uma reles barata, achei saída! Tantas! E ali não era mais tão escuro!

Era, sim, insuportavelmente claro e LIMPO!

 

A perspectiva das coisas a partir de mim, como barata, era ridícula. Tudo deixou de ser o que era, e virou tão desagradavelmente desagradável da mesma forma, mais às avessas!

Tanto eu quanto a barata reconheceríamos que aquele lugar não seria para nós, mesmo ele sendo para ela o que eu buscaria, e para mim, o que ela sempre desejou!

 

Fujo da realidade sonhada por uma barata!

 

Quero luz, limpeza, pessoas, saídas... E a barata, quer reentrâncias, solidão, sujeira e breu.

 

Então, barata, façamos um trato: VIRE ELOY, e saia por aí com sua liberdade débil, e me guie frente à maldade, a podridão, a impessoalidade, as ruas sem saídas... Guie-me fora de tudo isso, ou, dentro, mostre-me outra perspectiva.

Quero ver que o podre e o mal não são tão podres e maléficos assim!

Ou são ainda piores, mas, com seu olhar de barata, aquilo tudo me parecerá atraente, desejável, necessário.

 

Dê me uma aula, barata, e ensina-me a ser um Eloy MENOS Eloy, e mais barata!

 

E assim, embaratado, em baratices, e, num grande barato, altero-me.

 

Deixo aqui, nesse quarto sombrio, para mim, que fique claro – e, para você, que escureça, claro –, deixo cascas, barbatanas, orelhas frágeis, asas, gosmas de um Eloy que se transforma, METAMORFOSEIA-SE, como você a qualquer fim atômico, e vira Eloy, de novo? O mesmo?

 

NÃO, depois dessa experiência nada barata, ele ou eu não poderíamos mais ser o mesmo, os mesmos. Viramos, isto, sim, ser plural e de agora nojentas possibilidades, nojentas possibilidades de um mundo que aos olhos dos outros é limpo, um mundo digno às baratas... Claro, barata, nos seus infinitos cantos, de cantos e silêncios, existe tanta podridão, tanta PODRIDÃO BOA, não é? Quem diria? O podre é vida, vida boa também!

 

Você sobreviverá, e eu morrerei para ser comida de cascuda!

 

Tanta dor, angústia, fibra, luta, para virar o lado podre de tudo, e, enfim, me aquecer no estômago acolhedor da barata.

 

A porta do quarto se abriu... A barata fugiu, e eu... Fiquei ali, sem agir.

 

 

 

 

 

 



Escrito por Eloy Nunes às 13h15
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