PÁSSAROS ASSOBIAM, por Eloy Nunes

Um passo. Outro passo. E lá se foi o caixão. Enterramos mais um, anuncia o coveiro, que enxuga o suor ralo. O trabalho enobrece com as gorjetas, retruca o outro. Você considera dois dólares, bom? Eu, não. Já teve dia em que à noite juntei 27. E fecham a porta do mausoléu. Finalmente, útil.
Algumas flores de cores opacas, com bordas queimadas, apoiadas nas paredes úmidas pela chuva matutina. Um ponto de luz tênue do poste próximo. Nada mais. Esta noite no cemitério, não haverá alma viva nem choramingues, pensa. Aliás, um enterro fora do comum, né? Três parentes que não choraram. Na verdade, uma lágrima tímida. Seca, rispidamente, uma ofensa naquele rosto compenetrado. Fechou-se a tampa sem falas nem silêncios, só passos de retirada. Os três aparentando parentes buscaram sentidos opostos, e restaram os dois. O corpo não foi velado direito, e se benzeu, contrito. O mais novo assobiou um blues, achando que o refrão se adequava ao momento. Isso me incomoda, não gosto de amenidades no trabalho, resiste o parceiro. E o silêncio vence, magnânimo. Seguiam a passos largos, quando um barulho os trouxe de volta! Incrível, a lua cintilava sobre o mausoléu! 2.568 túmulos, e só brilhava lá. Mas afinal o que seria aquele som sinistro? Um grito? Um pássaro? Gases? O cadáver? E um medo sugou qualquer pensamento e ação. Olhavam, e bastava; já havia a resposta. De fato, um pássaro invadiu o mausoléu ou foi trancado ali. Batia asas, incomodado com a escuridão e falta de espaço, sei lá. Os rapazes aflitos abriram a porta, e o bicho preto não voou. Bicava impiedosamente o cimento, queria abrir uma fenda... E na força descomunal, o cimento novo cedeu, e continuou bicando até criar buraco maior, e maior... Chegou até a madeira. E depois surgiu o cabelo do morto. Parou. Eles, atônitos. Não sabiam se viam ou imaginavam, e uma outra ave saiu dali de dentro. Nossa, que visão! Será mesmo? E os dois seres alados se acarinharam como nunca houvera paixão igual, e voaram para os céus... O desespero do pássaro era amor! E chora como nenhum parente haveria de chorar em velório algum. A dupla viu o que não podia ser o que era, ou foi; e mesmo assim indescritível! Três corujas repousadas na oliveira em frente partiram juntas. No caixão só roupas. E nada falaram ou comentaram. Fecharam o cadeado e retornaram ao retorno de suas casas. Um deles, nunca mais pisou ali. O outro justamente o que não cantava no trabalho, permitia-se agora a cantarolar sucessos de orquestras. O que melhorou em muito suas gorjetas. Chegou a fazer 42 dólares num fim-de-semana. Ah, o papagaio desse, que nunca dizia nada e mantido fazia 13 anos na área de serviço, finalmente aprendeu a dizer algo, a-or. Papai, o louro pediu a-or! Disse a menina. Será? Duvidou a mãe. Será! Disse para si, e soltou o pássaro à janela. Não faça isso, pai! Lúcio, o que tá fazendo? Nem ele sabia, e o vôo glorioso estancou na mangueira da praça. De lá, ouvia-se, a-or! A-or! Pai, e agora quem dará a-or para ele? Não sei, filha, mas, livre, saberá encontrar... A mãe foi dormir, ele passou o trinco na janela. E a garota, em claro, só pensava e pensava, o que seria tão importante naquela palavra, a-or?
Escrito por Eloy Nunes às 02h59
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