ELOY NUNES


COPACABANA É NOSSA! Por Eloy Nunes

 

Luzes me cegando, me cercando. E eu corro. Querem atravessar meu corpo. E atravesso eu. Ao invés de evitar, desafio. Percorro a avenida Atlântica no sentido contrário aos carros e seus faróis azuis, amarelos, brancos e sinais vermelhos impeditivos. Minutos antes estava na ciclovia, minuto seguinte, vivo, apesar dos beliscões de ferro em meus braços, pernas, pêlos. Não tenho nada que me proteja nem roupas. Corro pelado em Copacabana. Sou a sensação da galera, das banhistas, dos bebuns, dos turistas... Flashes se mixam aos faróis altos, mas, em manobras radicais, os carros evitam meu atropelamento. Se fosse rush, não teria emoção. Agora lembra Roberto aloprando na Augusta e derrapando na estrada de Santos; mas sem carro! Espanto! Riem, xingam, buzinam, ameaçam, mas ninguém me joga dali, batendo-me de frente. Evitam como a morte, e os ameaço, ciente do risco, correndo risco... Correndo. Paro. No asfalto, sem beijo, fora da faixa, sem faixa alguma alegando nada. Só um corpo limpo: “Agora a rua é nossa!”, brado sob buzinaços e cantadas de pneus. Esbravejes surgem das janelas dos carros, dos apartamentos, abertas para me ver. Sobrevoam a mim, emissoras desafiadas a entender. “Agora a rua é nossa!”, pulo, gesticulo, enalteço. Lá de cima, dos lados, de calabouços ambulantes, celas que se movem ou não, ninguém me entende, ninguém me ouve. Aliás, nunca. E resigno. Caminho ao calçadão. Uma senhora me cobre a vergonha, largo a toalha à areia. Os pássaros de metal me focam, com seus olhos de luz à distância. A morte se segue, sem anúncios. Rendo-me em silêncio reverberado por Copa. E me dou ao mar, como em Nelson. Indo-me ao fundo. Bóio na manhã seguinte, mais nu e inchado. Na capa dos populares, com citações musicais, “Morreu... Atrapalhando o trânsito”. Todos voltam à sina, levando-se, e, dois dias depois, uma taínha me leva em papel jornal que a cobre. “Se essa rua fosse minha”. Taí, a mais perfeita citação. E sigo no braço de um rapaz que fará do peixe o jantar para sua namorada.

 

 



Escrito por Eloy Nunes às 20h36
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