ELOY NUNES


Ponto final ou Desenlace, por Eloy Nunes

Não adianta não quero papo se toca nada a ver ficar me controlando querendo falar quando não quero o que dizer sobre o que já foi é fato é assim não quero não adianta insistir não vou não estou mais aqui se quer saber já virei a esquina estou agora num bar na rua noutra cidade flertando e você ainda quer falar sobre nós nós quem nós quando nós agora é brincadeira eu não sei brincar falo sério e agora é assim chega não me venha com carinhos fora de hora se me quis porque virou isso que hora eu não vivi para chegar nisso porque é assim porque ah por que o caralho você é um ponto final pra mim um ponto de interrogação de como fui idiota uma vírgula que engatou nessa garganta e me faz explodir em exclamações que ponto de reticência você pede me dá licença nunca haverá ponto algum só final não houve conclusão nem desenvolvimento mas acabou nem vem nem olha assim não vou mais me deixar levar por suas mentiras mente desmente e mente de novo mais uma vez não para não desiste não cansa canse de mim então busque outra pessoa outra criatura que acredite nas suas demências demente mente burra a minha se liga não liga estou ocupado estou desocupado na verdade você não ocupa mais espaço algum dentro de mim e fora estou lá fora pegando pipa balão pássaro avião foguete para bem longe daqui longe de nós desatados estamos soltos ao léu é assim que você me deixa se deixe levar no vento entregue-se pelo menos ao vento ele saberá guiar você como eu sem destino meu destino é não saber meu destino e muito menos diria a você que chora que desespera que esperneia que ainda aposta num jogo perdido de cartas abandonadas sobre a mesa seu trunfo está caído ali debaixo da cadeira viu vê se me esquece não lembro mais de nada nem sei mais se estou falando com você ou você é invenção criatura-criação acreditei em sombras não havia luzes você escuresceu tudo tudo tá breu tudo se partiu tudo está em pedaços e perdidos estamos você não me merece você não nos merece você não se merece porque ainda insiste em nós porque ainda quer algo que nem existe mais nem sei se existiu quando é que você sairá do meu foco da minha aura das minhas lembranças porque você existiu afinal ao final é isso que me restou é isso que restou de mim e aonde estou agora se você ainda está aqui justo aqui aonde nem sei mais aonde estou chega vá embora eu fui e você me persegue porra você ainda está aqui eu mato você eu extermino você não vem não chega perto que cara é esse de piedade beijo afago espanto você me espanta você espanca minha credulidade você desvirginou minha fé abrutalhou o que chamei de amor agora tento acreditar no amanhã que você tentou exterminar também mas não conseguiu hoje já não é mais esse tempo que você viveu se viveu aliás eu nunca estive lá não poderia estar ali porque aqui estou e aonde estou agora é sem você e aqui você nunca esteve você não é você que eu pensei que fosse não é mais nada é nada é qualquer coisa que não registro não compreendo não intelectualizo ou emociono ou dialogo falo sozinho não está vendo você se suprimiu de mim você se escafedeu e fede apodrece deteriora comido por abutres desintegrou no estômago deles não vem não me toque não pense em mim eu também não vou mais pensar em nada de tudo isso para mim nunca houvera conversa só desabafo repúdio repulsa asco encerrei o que nem sei se fomos se houve e se mesmo assim você ainda insistir termino eu de existir pronto eu nunca existi em nada disso fui eu criatura-criação sua e se você também não existiu já que desintegrei você em mim pronto chegamos ao final afinal de algo que nunca teve seu início fim sem começo nem começamos nós ou nó algum.

 



Escrito por Eloy Nunes às 14h39
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Bem-vindo, bem-vinda ao meu blog!

 

Olá,

Todos esses textos que seguem foram criados por mim em momentos dos mais diversos.

Alguns antigos, outros bem recentes. Uns encomendados, outros catárticos, poucos de cunho pessoal, muitos completamente fictícios... E é maravilhoso trocar esse momento tão íntimo com você!

Escrevi de coração e espero tocar seu coração... Ah, depois comenta alguma coisa logo abaixo, ok?

Obrigado.

 

Abço de LUZZZ,

 

 

Eloy Nunes



Escrito por Eloy Nunes às 00h40
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COPACABANA É NOSSA! Por Eloy Nunes

 

Luzes me cegando, me cercando. E eu corro. Querem atravessar meu corpo. E atravesso eu. Ao invés de evitar, desafio. Percorro a avenida Atlântica no sentido contrário aos carros e seus faróis azuis, amarelos, brancos e sinais vermelhos impeditivos. Minutos antes estava na ciclovia, minuto seguinte, vivo, apesar dos beliscões de ferro em meus braços, pernas, pêlos. Não tenho nada que me proteja nem roupas. Corro pelado em Copacabana. Sou a sensação da galera, das banhistas, dos bebuns, dos turistas... Flashes se mixam aos faróis altos, mas, em manobras radicais, os carros evitam meu atropelamento. Se fosse rush, não teria emoção. Agora lembra Roberto aloprando na Augusta e derrapando na estrada de Santos; mas sem carro! Espanto! Riem, xingam, buzinam, ameaçam, mas ninguém me joga dali, batendo-me de frente. Evitam como a morte, e os ameaço, ciente do risco, correndo risco... Correndo. Paro. No asfalto, sem beijo, fora da faixa, sem faixa alguma alegando nada. Só um corpo limpo: “Agora a rua é nossa!”, brado sob buzinaços e cantadas de pneus. Esbravejes surgem das janelas dos carros, dos apartamentos, abertas para me ver. Sobrevoam a mim, emissoras desafiadas a entender. “Agora a rua é nossa!”, pulo, gesticulo, enalteço. Lá de cima, dos lados, de calabouços ambulantes, celas que se movem ou não, ninguém me entende, ninguém me ouve. Aliás, nunca. E resigno. Caminho ao calçadão. Uma senhora me cobre a vergonha, largo a toalha à areia. Os pássaros de metal me focam, com seus olhos de luz à distância. A morte se segue, sem anúncios. Rendo-me em silêncio reverberado por Copa. E me dou ao mar, como em Nelson. Indo-me ao fundo. Bóio na manhã seguinte, mais nu e inchado. Na capa dos populares, com citações musicais, “Morreu... Atrapalhando o trânsito”. Todos voltam à sina, levando-se, e, dois dias depois, uma taínha me leva em papel jornal que a cobre. “Se essa rua fosse minha”. Taí, a mais perfeita citação. E sigo no braço de um rapaz que fará do peixe o jantar para sua namorada.

 

 



Escrito por Eloy Nunes às 20h36
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PÁSSAROS ASSOBIAM, por Eloy Nunes

 

 

 

 

Um passo. Outro passo. E lá se foi o caixão.

 

Enterramos mais um, anuncia o coveiro, que enxuga o suor ralo. O trabalho enobrece com as gorjetas, retruca o outro. Você considera dois dólares, bom? Eu, não. Já teve dia em que à noite juntei 27. E fecham a porta do mausoléu. Finalmente, útil.


Algumas flores de cores opacas, com bordas queimadas, apoiadas nas paredes úmidas pela chuva matutina. Um ponto de luz tênue do poste próximo. Nada mais.

 

Esta noite no cemitério, não haverá alma viva nem choramingues, pensa. Aliás, um enterro fora do comum, né? Três parentes que não choraram.

 

Na verdade, uma lágrima tímida. Seca, rispidamente, uma ofensa naquele rosto compenetrado. Fechou-se a tampa sem falas nem silêncios, só passos de retirada. Os três aparentando parentes buscaram sentidos opostos, e restaram os dois.

 

O corpo não foi velado direito, e se benzeu, contrito. O mais novo assobiou um blues, achando que o refrão se adequava ao momento. Isso me incomoda, não gosto de amenidades no trabalho, resiste o parceiro. E o silêncio vence, magnânimo.

 

Seguiam a passos largos, quando um barulho os trouxe de volta! Incrível, a lua cintilava sobre o mausoléu! 2.568 túmulos, e só brilhava lá. Mas afinal o que seria aquele som sinistro? Um grito? Um pássaro? Gases? O cadáver? E um medo sugou qualquer pensamento e ação. Olhavam, e bastava; já havia a resposta.

 

De fato, um pássaro invadiu o mausoléu ou foi trancado ali. Batia asas, incomodado com a escuridão e falta de espaço, sei lá. Os rapazes aflitos abriram a porta, e o bicho preto não voou. Bicava impiedosamente o cimento, queria abrir uma fenda... E na força descomunal, o cimento novo cedeu, e continuou bicando até criar buraco maior, e maior... Chegou até a madeira. E depois surgiu o cabelo do morto. Parou. Eles, atônitos.

 

Não sabiam se viam ou imaginavam, e uma outra ave saiu dali de dentro. Nossa, que visão! Será mesmo? E os dois seres alados se acarinharam como nunca houvera paixão igual, e voaram para os céus... 

 

O desespero do pássaro era amor! E chora como nenhum parente haveria de chorar em velório algum. A dupla viu o que não podia ser o que era, ou foi; e mesmo assim indescritível!

 

Três corujas repousadas na oliveira em frente partiram juntas. No caixão só roupas. E nada falaram ou comentaram. Fecharam o cadeado e retornaram ao retorno de suas casas.

 

Um deles, nunca mais pisou ali. O outro justamente o que não cantava no trabalho, permitia-se agora a cantarolar sucessos de orquestras. O que melhorou em muito suas gorjetas. Chegou a fazer 42 dólares num fim-de-semana.

 

Ah, o papagaio desse, que nunca dizia nada e mantido fazia 13 anos na área de serviço, finalmente aprendeu a dizer algo, a-or.

 

Papai, o louro pediu a-or! Disse a menina. Será? Duvidou a mãe. Será! Disse para si, e soltou o pássaro à janela. Não faça isso, pai! Lúcio, o que tá fazendo? Nem ele sabia, e o vôo glorioso estancou na mangueira da praça. De lá, ouvia-se, a-or! A-or!

 

Pai, e agora quem dará a-or para ele? Não sei, filha, mas, livre, saberá encontrar... A mãe foi dormir, ele passou o trinco na janela. E a garota, em claro, só pensava e pensava, o que seria tão importante naquela palavra, a-or?



Escrito por Eloy Nunes às 02h59
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CLARIDADE DEMAIS, MATA! Por Eloy Nunes

Fecharam a porta. Escureceu. E ali dentro, só eu.

Além de um sofá puído, uma mesa bamba, duas cadeiras com os pés roídos por um cachorro que viveu ali... Ainda um cheiro desagradável de urina de cachorro ou coco, não sei ao certo. De certo, precisaria sair dali.

E estava encalacrado, sem chaves, sem janelas, sem buraco de rato se quer!

Uma vontade se apoderou de mim. Uma vontade de transformar toda aquela escuridão visível em uma invisibilidade total, uma possibilidade impossível de tudo ali advir.

E adveio uma tremedeira, um desmaio, e logo levantei, ou seria RASTEJEI?

 

Sentia que não tinha braços nem pernas, não essas convencionais do Eloy de sempre... Mas um bater de pernas finas e peludinhas, uma angustiosa volúpia de sair pelas paredes escuras atrás de cantos ainda mais sombrios. Sentia isso, CREDO!

 

Como em Clarice, Kafka e produções hollywoodianas, virei uma BARATINHA ASSANHADA!

 

E lá me fui pelas paredes nem tão retas, nem tão escuras assim, e achei frestas, brechas, vácuos... Sendo uma reles barata, achei saída! Tantas! E ali não era mais tão escuro!

Era, sim, insuportavelmente claro e LIMPO!

 

A perspectiva das coisas a partir de mim, como barata, era ridícula. Tudo deixou de ser o que era, e virou tão desagradavelmente desagradável da mesma forma, mais às avessas!

Tanto eu quanto a barata reconheceríamos que aquele lugar não seria para nós, mesmo ele sendo para ela o que eu buscaria, e para mim, o que ela sempre desejou!

 

Fujo da realidade sonhada por uma barata!

 

Quero luz, limpeza, pessoas, saídas... E a barata, quer reentrâncias, solidão, sujeira e breu.

 

Então, barata, façamos um trato: VIRE ELOY, e saia por aí com sua liberdade débil, e me guie frente à maldade, a podridão, a impessoalidade, as ruas sem saídas... Guie-me fora de tudo isso, ou, dentro, mostre-me outra perspectiva.

Quero ver que o podre e o mal não são tão podres e maléficos assim!

Ou são ainda piores, mas, com seu olhar de barata, aquilo tudo me parecerá atraente, desejável, necessário.

 

Dê me uma aula, barata, e ensina-me a ser um Eloy MENOS Eloy, e mais barata!

 

E assim, embaratado, em baratices, e, num grande barato, altero-me.

 

Deixo aqui, nesse quarto sombrio, para mim, que fique claro – e, para você, que escureça, claro –, deixo cascas, barbatanas, orelhas frágeis, asas, gosmas de um Eloy que se transforma, METAMORFOSEIA-SE, como você a qualquer fim atômico, e vira Eloy, de novo? O mesmo?

 

NÃO, depois dessa experiência nada barata, ele ou eu não poderíamos mais ser o mesmo, os mesmos. Viramos, isto, sim, ser plural e de agora nojentas possibilidades, nojentas possibilidades de um mundo que aos olhos dos outros é limpo, um mundo digno às baratas... Claro, barata, nos seus infinitos cantos, de cantos e silêncios, existe tanta podridão, tanta PODRIDÃO BOA, não é? Quem diria? O podre é vida, vida boa também!

 

Você sobreviverá, e eu morrerei para ser comida de cascuda!

 

Tanta dor, angústia, fibra, luta, para virar o lado podre de tudo, e, enfim, me aquecer no estômago acolhedor da barata.

 

A porta do quarto se abriu... A barata fugiu, e eu... Fiquei ali, sem agir.

 

 

 

 

 

 



Escrito por Eloy Nunes às 13h15
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DO ABISMO À LUZ, por Eloy Nunes

 

Meu chão caiu...

E o abismo que se abriu é parte de mim, então eu sou bem mais profundo do que supunha. Agora não vejo o fim, onde será o alicerce de tudo que sou, de tudo... Tudo o que?

Não tenho raiz, daí não tenho caule nem galhos muito menos frutos. Sequei na terra, sem deixar registros, e o incrível é que o buraco resultante é tão profundo; um vácuo sem-fim.

Dá até vontade de gritar pra ver se ecoa. Gritar o meu nome? Mas eu nem existo, virei vazio. Vou gritar o nome da pessoa que amo... Porque mesmo desintegrado ainda existe no que seria eu aquele sentimento. Quem sabe daquela fenda sinistra não surge uma voz respondendo que me ama também, e será ela, dizendo enfim que o nosso amor sobrevive à morte do corpo físico, dos acontecimentos catastróficos e, mesmo num vão sobrenatural, o amor retorna na voz que agora grita por mim. Ouço meu nome... Eloy.

Consigo com dificuldade reconhecer que a voz que grita é a voz que eu amo, e justo ela diz que me ama também.

Um soar de palavras que chega tão impactante que agora perco o ar, como perdi o chão. Como perdi você!

E você me surge do extremo fim, onde nem sabia eu que poderia existir algo ou ainda um pouco de mim, e me vem você!

Amando sem limites, somos dois num espaço livre, no espaço. Astronautas sem respirador, sem gravidade, sem nave espacial.

Somente seres disformes que se formam no olhar do outro: você se refaz à minha frente,

e quando seus olhos se completam e me avistam, eu torno a ser, eu ressurjo.

Nosso abraço tão natural vira encontro de galáxias, e explodimos em cores e luzes e novos abismos ainda maiores, onde semeamos desta vez vida. Mundos recriados ali num amor tão sublime, que mesmo Deus cede-nos sua função.

E você sorri uma lua nascente tão linda. Eu caio em lágrimas, estrelas cadentes que enfeitam a noite que nos recolhemos.

Vem, meu amor, de onde você nunca deveria ter saído. De dentro de mim, desse coração carente que só consegue voltar a pulsar ouvindo o ressoar do seu coração. E, de repente, tornam-se um.

Um sol que é capaz de iluminar a todos.



Escrito por Eloy Nunes às 00h18
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OLHOS DOS OLHOS, por Eloy Nunes

 

E me trancaram no quarto escuro. Era eu e as quatro paredes daquela cela.

Uma prisão imaginária, uma sentença sem motivo, uma culpa que nunca existiu.

E ali me resignei e orei. Falava com Deus, quando alguém me tocou os ombros.

Pensei que seria um anjo, e vi, mesmo sem luz, um rapaz como eu, muito semelhante, pareceria eu até, mas não era.

Não poderia ser eu, claro, ainda não estava há tanto tempo ali para estar alucinado e não saber mais quem eu era. Eu era eu, sabe, e ele era ele, entende?

E ele me olhava, não falava nada... Fui encalacrado ali sem ninguém e agora me surge essa companhia tão silenciosa, como assim?

Seria um anjo caído, preso na mesma condição que eu? Perguntei.

Seus olhos não respondiam minha asneira e me contemplavam com tamanho ardor que pensei, isso são olhos de alguém apaixonado! Putz, fudeu! O QUE EU FAÇO?

Grito? Ameaço bater? Digo que não sou gay? Falo que barba me dá alergia, até meu pai me causava uma irritação braba... E ele pegou na minha mão.

Ah, não vem! Empurrei com todo meu asco! Senti um “ai” e seu corpo batendo contra a parede... Num gesto contínuo, quem empurrou foi acudi-lo, e olhando-o no chão, vi que se tratava de alguém muito parecido mesmo comigo. O seu olhar só poderia ser o meu. Vi que a cor era a mesma, e tentei enxergar o resto, e medindo cada centímetro do seu corpo vi que se tratava de um cópia, uma réplica perfeita de mim.

E essa criatura do além continuava me olhando um olhar que me desnudava por completo. Ainda bem que estava escuro, pensei, e ele sorriu. Captou meu pensamento, e reagiu enfim.

Além do ai será que ele podia falar algo? Dar alguma explicação, afinal, ele me surgiu quando eu estava no meio da ave-maria... E ele pegou de novo minha mão e levou até sua ferida aberta, sangrando, provocada provavelmente por meu empurrão. Não senti naqueles olhos nenhum rancor ou mesmo dor, ele era uma criança vidrada nos olhos do pai, e o pai, no caso, quase o matou.

Daí, gritei, pedi socorro, o rapaz que não sei o nome que apareceu do nada e não fala nada está morrendo, socorro! Ninguém acodia, ninguém respondia. Eu silenciei, e chorei... Ele chorou também. A minha vítima se apiedou da minha dor, mas a dele era maior, até porque se colocasse mais sangue ali, ele iria morrer em meus braços.

Não sabia o que fazer. Então, eu o embalei, cantando canções de ninar... Tudo entrecortado porque não lembrava direito, e sinceramente achava que dormindo ele sentiria menos dor. E naquele momento, juro, senti a mesma dor que a dele. E ele golfava sangue, me banhando inteiro e já eram seus momentos finais.

Pedi, como súplica, diga quem você é, e, num gesto supremo, conseguiu falar... Falou; e sabe quando as palavras são praticamente nada pela conexão imensa que sentimos naquele momento?

Acho que ele adormeceu ou morreu... E eu?

A partir daquele instante deixei-me brilhar, iluminar o recinto e, quando vi, não estava preso. Estava livre. E o corpo dele se dissolveu em pó. Um vento levou tudo dali, inclusive minhas roupas e pudores... Estava tão nu, e nada envergonhado.

Só vinha à mente aqueles olhos, que de fato, eram meus. Resgatados no outro, de um outro que sou eu também, que somos todos nós.



Escrito por Eloy Nunes às 22h59
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Todos somos assassinos, por Eloy Nunes

 

Acordei com os olhos ardendo, um som interno gritando: Hoje eu vou matar.

Levantei de calcinha e peitos expostos, suados, do bico às axilas.

Meus cabelos estavam eletrizados e revoltados no espelho.

Mais um dia com cara de louca, e finalmente entraria em ação.

Decidi matar o porteiro... Não, o porteiro não! O zelador, então? Ou aquele taxista abusado? Aquele pedinte fedorento da esquina? O ambulante que grita no meu ouvido toda vez que passo pela rua? O garçom sem graça da cantina que só vou aos sábados de dias pares? Ah, quem vou matar pra saciar minha vontade...?

Vesti uma Hering, rasgada, amarelo desbotado, com uma saia jeans com detalhes laterais, uma sandália baixa preta, deixando a mostra minha tatuagem de avestruz, desbotada também. Olhava a pose da avestruz com a cara enfiada no meu calcanhar e ouvi umas palavras no elevador. Nem compreendi, só me preocupei em esconder a faca no bolso detrás. Olhei de relance e vi uns olhos sorrindo pra mim. Pra mim? Justo hoje? Ah, nem vem, você pode ser a vítima...

Olhei com desdém o homem, e prosseguiria meu caminhar decidido logo após a porta abrir... Não abriu. Faltou luz, o elevador estancou entre o quarto e o terceiro andares.

Ele voltou a falar comigo, e eu não entendia nada. Não ouvia, estava tão longe dali. Só pensava em sangue e tripas pulando, e o elevador parado elevava ainda mais a minha... Dor.

Tinha sido traída na noite anterior, meu macho foi embora com outro macho. Nem tão macho assim, aliás, nenhum dos dois, mas eu, sim.

Acordei machona, puta de revolta, angustiada nos limites, irritada ao extremo, hoje eu saciaria minha dor em dor, em dores.

Mataria em mim a menina virgem que se entregou ao amor um dia, e veria estrebuchar no chão um corpo que eu escolhi para assistir a morte que eu mesma vivi na noite passada.

Passaram horas, o dia veio, e o escândalo de ver aquele namorado traidor dando a bunda na minha própria cama não me permitiu acordar hoje, e não voltei mais a mim, não caberia em mim a revolta.

Tomada por pensamentos, senti um toque nos meus lábios, um outro lábio me beijava? Não acredito! Aquele cretino de riso fácil estava me beijando? Como assim?!? Ele não percebe que estou em vias de matar alguém? Que agora pode ser ele? Esse beijo vai lhe custar caro, e peguei discretamente o cabo da faca... Onde está a faca? Eu tinha trazido comigo, posso garantir!

E ele vasculhava a minha boca com sua língua ansiosa... Que cretino. Eu o mataria agora, se achasse minha faca... Será que ele pegou? Além de ser vítima de traição da pior espécie, vou eu agora ser violentada com a faca que me pertencia? Passei a mão no corpo inteiro dele pra ver se a faca estava com ele, e nada, só senti seu membro duro. E decidi revirar suas intimidades atrás da faca!

Não sei o que sentia, mas fiquei molhada e, rápido, sua língua tirou meu seio da camiseta e correu até meu umbigo e depois... Transamos no elevador. E urrei pra fazer escândalo mesmo. Ele tampava minha boca, dizendo palavras num tom tão agradável... Parecia até um ex-namorado meu... Um antigo amor... Uma paixão repentina... Eu o abracei com tanto despudor que a luz voltou e a gente não se desgrudou naquela posição bizarra, que não se saberia quem estava penetrando quem. Alguém abriu a porta, a gente não estava nem aí, estávamos em outra galáxia... O que o sexo não é capaz? Rs

Ele gozou, eu também, finalmente... E relaxei. Só fiz dizer pra ele que morava no quinto andar, aparto 55. Ele me colocou na cama, e acordei de noite, com ele deitado na beirada. Acordei, sobressaltada, onde está a faca? Pois é, faltava mesmo uma faca no jogo de facas... Lá fui eu vasculhar o rapaz, e... Não era que ele era bonito demais! Além de um sorriso lindo, bom de sexo, atirado, ele era lindo? Rs

Como pode? Minha cama tá com mel? É o terceiro homem que deita nela em dois dias! Rs

E eu que queria mata-lo... Busquei nas minhas profundezas algum motivo pra ainda matar alguém, e ele despertou... Devagar, espreguiçou, ergueu braços, vi axilas, respirou fundo e disse, boa noite, Catarina. Ele sabia meu nome? Não lembra de mim? Ele disse. Eu nem respondi, não lembrava. Foi comigo que você perdeu sua virgindade há vinte anos. Nossa, o carteiro virou aquele sedex maravilhoso? Não sou mais carteiro, sou investigador e que grata surpresa ver que você se tornou uma mulher incrível, porque inesquecível você já era. Imagina, eu tinha 14 anos, disse, emendando que estava horrível e passando por uma crise amorosa das piores... Ele me puxou e olhou fixo nos meus olhos, e não disse nada, mas eu berrei. Vi pelos seus olhos, atrás de mim, meu namorado traidor vindo com uma faca nas mãos! Era alucinação minha, não tinha ninguém! Acho até que nunca houve namorado algum, e muito menos este ex-amante carteiro... Mas a vontade de matar alguém era pura e simplesmente verdadeira... E matei. Matei a menina mentirosa e sonhadora que sempre fui, e decidi recomeçar vida nova.

 

 

 

 



Escrito por Eloy Nunes às 22h03
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Página em Branco, por Eloy Nunes

 

Uma página em branco, e tantas amassadas dentro de mim.

 

Virei lixeira que não recicla, ando entupido de amargores, dúvidas e a única certeza é que não tenho certeza de nada.

 

Agora olho para o papel... Alvo, sem defeitos, limpo como um dia eu devo ter sido.

 

Será que, um dia, fui branco assim?

 

Desconfio que nunca fui puro... Devo ter manipulado minha mãe, ter tido raiva de meu pai, ainda pequeno, bem pequeno, mas grande nos erros!

 

Esse é o melhor dos feitos do ser humano, errar.

 

A gente erra pra valer, sem evitar quedas memoráveis, vergonhas absurdas, tragédias, comoções, violências; e amor, muito amor.

 

O amor é o maior erro que pode existir na face da terra!

 

Amar não é possível pra ninguém, ele nos violenta a condição transitória que tudo é e somos, é uma idealização e não passa disso!

 

E a gente tenta amar, chora, desespera, chafurda na bosta, e chora de novo, acredita, sonha, amedronta, se fecha, abre de novo, é uma gangorra sem-fim, que não tem graça e está num parque abandonado preste a ser explodido.

 

Só Deus, dizem, ama a gente, e veja as enrascadas e presepadas que Ele nos enfia por amor.

 

É duro, machuca, sangra até, e dizemos que é por amor, imagina.

 

A mãe, dizem, é exemplo vivo de amor na terra. Sem entrar nos exemplos bizarros, ela geralmente manipula, quer pra si, projeta, opina acintosamente e por aí vai.

 

Ou não vai, ninguém ama nada nem ninguém nessa orbe. Não adianta me iludir, aliás, só faço me iludir quando o assunto é amor.

 

Somos seres sem amor próprio, que dirá amor pelo outro!

 

Alguém já amou de verdade? E o que, afinal, seria verdade?

 

Chega de achar que acertamos, só podemos errar, já que o destino de todos é a cova.

 

Imperiosa necessidade de amar que nos move, mas pra onde? Pra morte? Se for assim, que outro sentimento surja pra nos levar a viver!

 

O sentimento de... Algo tipo... O pior é que o quê de mais nobre posso imaginar é o amor.

 

Como sou mesquinho, gente, repetitivo, e pior, falo mal da única coisa de nobre que consigo imaginar, só imaginar mesmo, porque viver, ah, aí já é pedir demais!

 

Página em branco, continue em branco, assim como meu coração passou em branco, e as nuvens só me trouxeram desabrigo e chuva na cara.

 

Lave-me das descrenças, feridas abertas, expostas, purulentas, de tantos desamores, erros sobre erros, ansioso por carinho de estranhos que nunca chegam na hora certa...

 

E que horas são agora? Quem é você que lê esse meu desabafo? Tem pena? Ah, você concorda comigo? Foda-se.

 

Não quero o amor de ninguém, nem mesmo o meu. É sempre tão temporário, interesseiro! Malditos humanos somos nós sem nunca ser nem ao menos humanos.

 

E a página em branco se dissolveu na chuva, melhor assim.

Escrito por Eloy Nunes às 22h17
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EU PRECISO DE VOCÊ! Por Eloy Nunes

 

Pronto, tá decidido! Eu não vou morrer!

 

Decidi, agora, tá feito. Faz muito tempo que penso nisso, e isso me causa um certo estresse... Estou conquistando tantas qualidades na vida, aprendi a matar meus medos, aliás, ainda tem um monte vivo, mas já consegui vitórias ousadas, e a vida vai embora assim...

 

Despede-se de mim num sono, num acidente, num susto? Não tá certo! Não acho justo! Definitivamente, eu não vou morrer!

 

Quero viver pra sempre. Se bem que pra sempre é muito tempo, mas nada definido e é sem ponto final, e isso me alegra! Gosto muito de escrever, colocar reticências, vírgulas, pontos seguidas, não curto finalizar meus pensamentos. O encerramento me incomoda. Prefiro divagar, seguir sem pausa, sem ruptura, sem final.

 

O final é triste, faz a gente chorar, um choro saudoso que cai em prantos constantes, numa lembrança trágica eterna. E eterna eu quero que seja minha vida! E não a tristeza de um dia não viver mais!

 

Porque eu tenho de morrer, afinal? Porque tenho de me despedir sem volta? Eu gosto de brigar e fazer as pazes! Preciso disso! E só vivendo, e muito, a gente consegue essa façanha! Eu ainda quero fazer as pazes com todos meus algozes, quero viver sem inimigos... Pra que me serve morrer sem inimigos? É melhor viver sem eles, é até melhor viver com eles!

 

É melhor viver, acima de tudo, embaixo também, VIVER! Hoje eu decidi isso, prefiro viver! E muito, e constantemente, e eternamente... Não sei ao certo quanto dura o eternamente, mas é uma palavra linda, não é? Então, é isso! Vou viver eternamente...

 

Saibam todos que decidi não morrer, e podem divulgar aos quatro cantos. Darei entrevistas, falarei à frente de bandidos, no destino de balas perdidas, em prédios que desabam, em tragédias sem saída, no exato momento em que o carro perde o rumo e encontra uma parede... Não será o fim, não o meu!

 

Eu decidi, e está feito. Agora, é trabalho para anjos da guarda, santos, entidades próximas, amigos, familiares, amores, porque eu quero viver... E que todos eles saibam disso! Assim me ajudam a viver mais, a viver ainda melhor, sempre, pra sempre.

 

Podem contar comigo em suas vidas, afinal, serei mais eterno que Drácula, que maldição de ex-mulher, que a Hebe na TV, que juros altos no Brasil, que o legado dos portugueses no nosso território... Ao final, se houver, eu seguirei sem interrupções... E, se você tiver coragem, venha atrás de mim, e, se preferir, tome a frente... Seguir você pode ser mais fácil, mais vivo!

 

Quero viver, eternamente, mas nunca sozinho, faça-me companhia, eu preciso de você! Eu só vivo com você! Por você! Pra você!

 

 



Escrito por Eloy Nunes às 14h01
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DE NADA, por Eloy Nunes

 

Um telefonema. Do outro lado, um silêncio estarrecedor. Nem respiro.

Nem inspiro. Outro telefonema, agora, sim, gente de verdade. Converso.

Nem desconverso. Sou eu, mesmo, em silêncios e devaneios. Desligo.

Volto ao meu ser, sendo eu mesmo, só eu mesmo, em silêncio, enfim.

 

Ligo a TV, nada me inspira ou respira, deixo naquele som de final de programação...

E saio do ar, da sintonia, da programação que sempre tive idéia, mas nunca pude escalar, definir, publicar.

Sou um emissor de silêncios e palavras desconexas, sem indicações para os espectadores, sem audiência, sem anunciantes.

Minha TV pega bem lá em casa, e só lá em casa. Ou melhor, naquela tarde, nem lá em casa. Estava sem sintonia com o mundo. Comigo.

Fico horas assim, e ninguém se queixa; melhor assim, melhor pra mim!

 

A cobrança de alguém perpetua a cena, congela o ser, reprime a evolução!

E evoluo em espasmos pelo ar ao léu, sem véus, sem antenas captando, sem sintonia fina ou grossa, sem tecnologia. Volto ao mais primitivo de mim, e faço necessidades na sala, no chão, não me envergonho, não regulo. Tenho necessidades, muitas, mas não reconheço.

 

Estou livre de qualquer fato publicável, citável, tangível, estou sem estar aqui, estou mas sem questionar, simplesmente estou. E assim fico. E assim me mantenho, sem manter nada em comum com ninguém. Sou eu, simplesmente, simplesmente, sem outra referência, sem outro julgamento, sem dúvida.

 

O silêncio daquele telefonema ressurge, então, e daquele vácuo obtuso ouço murmúrios. Lamentos? Queixumes? Choros? Não sei. Não saberia. São barulhos, para mim, não mais decifráveis.

 

Estou fora do ar, fora de mim, fora do mais além... E lá não se mede Ibope! Nem mesmo eu, agora, sou obrigado a me assistir... E saio pelo ar, sem cobranças, sem purismos, sem impurismos, sem mim. E lá sigo eu, sim, eu, sem nada além de algo que fui, que sou? Eu sou aquilo lá que se esvai no ar? Então não sou mais nada, e assim encerro-me ali.

 

Acabo de passar dos meus limites e onde fui parar? Acabei comigo e, afinal, o que fui? E daquela despedida triunfal, alguém liga a TV, alguém me chama na secretária eletrônica... Quem é aquela pessoa na tela? Que nome é aquele mais estranho, Eloy, Eloy de que mesmo? Não volto mais ali, muito menos estou mais aqui, sou nada agora, agora em nada me resolvo... E, sabe, é bem melhor assim. Até agradeço a esse tal de Eloy. Vlw, cara!

Escrito por Eloy Nunes às 08h31
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MEU NARIZ DE PRINCESA, por Eloy Nunes

 

A menina feia cortara o pulso de novo ainda nem cicatrizado. Desta vez, só sairia do chuveiro sem vida.

Sua maior ferida era outro buraco, um imenso, no meio dos peitos que nem cresceram ou mesmo foram tocados. Só por ela, timidamente.

Tinha tentado de tudo: a igreja da tia devota, não comer chocolate e desabafar com duas amigas. Ninguém entendia sua dor nem ela.

E a ferida sangrava no peito e nos pulsos. Num impulso, gritou mãe! Pai! E o nome de um menino! Eles saíram para jantar, e o tal garoto...

Ela encasquetou que ele seria seu amor de vidas passadas, desde aquele mítico recreio. E quem haveria de mudar seus sentimentos? Muito menos ela ou ele, que soube do lance no corredor da escola num esbarrão proposital. Nunca houve “olá” entre eles, e agora aquela mirabolância toda. Ele riu, ela chorou.

E chorava sob a chuveirada. Nessa hora, o menino dormia ou batia punheta pensando em alguma outra garota.

A caixa d’água secou e ela esmurrou o azulejo, pintando bizarramente a parede. A artista surgiu tão desesperada que destruíra a obra, escorregando desfalecida com a cara no ralo. O Box sangrava, ela, pálida.

E, milagrosamente, o sangue estancou. Levantou triste, não sairia dali para a cova nem alcova alguma, mas para sua cama, manchando-a de vermelho tão íntimo, que a mãe guardou o lençol, celebrando a primeira menstruação da filha. Errara a data em dois anos.

No verão seguinte, perdeu a virgindade com um primo mais velho, bêbado. Foi legal, na cama dela, num novo jantar dos pais, mas sem sentimento. Preferiu assim, o primo também. Aliás, ele não lembrou de nada depois.

Ah, detalhe, o garoto, paixão de suas muitas vidas, não batia punheta, ou melhor, batia, e sagradamente, à noite, mas numa concorrência desleal... Revelou-se gay. E ela sempre acusaria o torto do seu nariz que nunca foi assim tão torto.

                       



Escrito por Eloy Nunes às 12h38
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CLARAMENTE MARIA, POR ELOY NUNES

 

Essa CLARIDADE do seu olhar mata.

 

Tanto que despenquei ali na esquina, esguichando geléia framboesa num corte profundo do agora vazio pacote de bolacha MARIA.

 

Maria, assim ela se chama. Chamo, e não retorna o olhar... Azul, verde, mel, pouco importa.

 

A geléia se misturou com suor frio. Faltou-me ar, perdi o rebolado, ganhei o dela!

 

Ora remexendo a cadeira para um lado, ora para o outro, com ininterruptos pensamentos nada frios à mente.

 

Que NÃO MENTE, estou de quatro por ela!

 

Posição interessante de imaginar MARIA CLARA... Qual sua idade? Signo? Endereço? Terá Orkut? Blog? Fotolog esquecido? Poderia gritar por seu telefone!

 

Daí, me toco... Como sei seu nome? Pois é, nunca a vi; ah, meu coração de PAPELÃO é que inventou.

 

Achou bonito. Só espero que MARIA CLARA também goste, não é?

 

Putz! Ela se foi. Perdi MARIA CLARA.

 

Agora, só me resta a MARIA CLARA da escuridão da minha mente, desta mente que NÃO MENTE; daí, sempre me acusará que MARIA CLARA não é MARIA CLARA.

 

Vou aguardar aqui, de olho naquele olhar CLARAMENTE MARIA CLARA.

 

E rascunharei em PAPELÃO o nome dado, dando meu coração para sempre.

 

Esperando que pulse não mais solitariaMENTE, mas junto à CLARA, MARIA ou à  mulher de olhar CLARIDADE que me ressuscite.

 

Não busco olhar FATAL, busco apenas a minha MARIA.

 

Ao alcance do olhar, CLAREANDO a MENTE e cobrindo-se com meu coração PAPELÃO para não perder o frescor nem se perder de mim!

Escrito por Eloy Nunes às 01h32
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Sol, lua, menino, por ELOY NUNES

O garotinho venceu as tábuas traiçoeiras do Trapiche do Laranjal, aos trôpegos. Sem pestanejar, sem corrimão, ninguém a vista.

Conquistou o ponto mais adentro da Lagoa dos Patos, e sentou, com os pés e olhos soltos... Um final de tarde atípico aquele.

Apesar do calor e das águas convidativas, os gaúchos sumiram. Só ele estava ali, conferindo o entardecer mais lindo que já surgiu!

 

O céu de azul limpo ganhou camadas sobrepostas de roxos, lilases, amarelos, brancos, e o sol, digno e firme, cedia espaços à lua cheia.

 

Um momento estava entregue ao astro-rei, noutro, queria pegar a lua, de tão próxima. Achava que era sua, sua nova peteca preferida!

 

Viu que não via as margens do outro lado da Lagoa, mesmo assim, a imensidão não lhe assustava, incentivava a imaginar!

 

O sonho da sua existência tão prematura estaria acolá, depois daquele mundão d’água... Ou aqui, como a lua, a luz da lua, o efeito da lua. E do sol.

 

Estava acompanhado da natureza, e escurecia... Qualquer criança ficaria apavorada, ele, não! Estava sob o luar.

 

Encontrava cumplicidade que só sentiu no seio da mãe, no colo do pai. Só com gente que um dia deixa de ser gente... Já a lua triunfará na despedida do sol, sempre. E vice-versa.

 

Os pés já não balançavam, olhos aquietados, adormecera numa noite tão acolhedora que até a eletricidade acabou na região, em respeito.

E a lua luziu o luar sobre o menino, que virou Luz na beirada do Trapiche. Virou celestial, como a lua, como o sol, como os sonhos de todo menino.



Escrito por Eloy Nunes às 23h04
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O ETERNO, por Eloy Nunes

 

Dois mil pés de altitude, e as nuvens como chão firme. Sempre me senti assim, aéreo. Sem brevê ou autorização, somente disposto a embarcar para longe, rapidamente, sem sentido. Este é o principal detalhe, sem destino.

Rumo ao alto, cada vez mais desorientado ao longo do caminho... Um Ícaro sem sol, sem queda. Um Adão sem Eva ou serpente. Um minotauro sem labirinto. Um ser que tenta ser.

Nem que para isso busque a companhia das estrelas, a raridade do ar, a ausência da gravidade, os sistemas ainda não catalogados.

Difícil missão a minha de fazer castelo nas areias da lua, de abençoar os anéis de saturno, de julgar se plutão é afinal um planeta. E eu lá sou alguém? Eu sou?

Nem refletido em proporções colossais nas águas do Atlântico ou curtindo um rabo de cometa, mesmo assim, não consigo sentir minha vida!

Vou fora do mais além, e a impossibilidade existe em mim. Sou, não-sendo!

Questão antiga, tão particularmente minha... Então, se é minha, eu consigo ser!

Existo através da dúvida, do não-sentido, da desorientação.

Volto do infinito ao solo mais fértil, e não broto!

Não avisto Abrolhos, não desvendo o Novo Mundo, muito menos testemunho o Antigo.

Vejo a terra redonda, e desconfio. Acendo a lâmpada, sou Idade Média. Esfria, vaporizo, sem combustão, nem sei do que se trata... Viro rabisco, escorro ao sangue do animal abatido, sinto a dor do primeiro dente que surge dente...

E, finalmente, broto!

Surjo à boca de um dinossauro!

Ali repouso. Língua, ansiedade de bicho. Vontades. Mastigo, ranjo, gasto. O animal morre, eu permaneço... Fertilizo o solo, quem diria!

Boas partes de mim sobem 50 metros na copa da árvore mais digna daquele trecho da costa leste dos Estados Unidos. Outros pedaços minúsculos viraram alimento de minhocas e, assim, num ciclo sem-fim, estive em milhares de milhões delas pela Ásia, África... No Brasil, ainda resisto no bico de colibris. Na Índia, a parte mais ínfima do que fui é agora íris de vaca. Navego pelo Índico, componho as barbatanas das baleias. Estou no céu, chão, água... Sou tudo, logo existo, sem saber quem sou exatamente.

Busquei vida, virei vida, mas restei em nada absoluto.

Resposta alguma obtive ao fim, e nem mesmo sei se houvera de fato começo.      

Escrito por Eloy Nunes às 01h36
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